Nos bailes da vida

Por Diego Lorenço

Atualizado em 12 de abril



O impacto da pandemia na vida de profissionais da música e as alternativas por eles encontradas para a subsistência nesse período.


Cantando, não me canso de viver


Como foi dito por Milton Nascimento, na canção “Nos Bailes da Vida”- lançada no álbum “Caçador de Mim” no ano de 1981, “Todo artista tem de ir aonde o povo está”. Adotando essa afirmação como premissa, nos cabe a pergunta: para onde a classe artística vai quando o povo não está em lugar nenhum? A pandemia do novo coronavírus trouxe consigo a necessidade de isolamento social. A prática do isolamento social, por sua vez, exigiu o fechamento imediato de bares, botecos e casas de show por tempo indeterminado. Esse silogismo simples expõe a trágica situação em que se encontram os profissionais que obtêm o seu sustento através do faturamento das bilheterias e do couvert artístico. Como agravante, tem-se o consenso de que os artistas serão os últimos a retornarem normalmente para suas atividades. Além de ferir o direito à sobrevivência, a falta de perspectiva para o pleno exercício de suas profissões enfraquece o espírito, calando a voz e os sonhos de cantores e músicos que alegravam as noites e as vidas do público ouvinte.


Dentre tantos músicos que sofreram o impacto desse período pandêmico, Gilson Loss, de 41 anos, que é baixista e vocalista da banda Lokos D’Bira, revela que tinha nos shows e apresentações, solo ou em grupo, sua principal fonte de renda há, no mínimo, quatro anos. “Eu estou na Lokos D’Bira há uns vinte anos, porém, somente nos últimos quatro ou cinco anos o projeto virou uma fonte de renda. Hoje eu também trabalho com produção de quadros e com artesanato, mas a música era a minha principal forma de ganhar o pão de cada dia. Além de tocar com a banda, eu também fazia muitas apresentações só voz e violão na noite, umas duas ou três vezes por semana em bares e botecos. Por isso, num primeiro momento, a pandemia me atingiu bastante.”



Banda Lokos D'Bira

Outra consequência imediata da pandemia foi o cancelamento de uma turnê da banda no Uruguai, que estava agendada para abril de 2020. A série de shows em território estrangeiro também contava com a participação de outras bandas de Esteio e Porto Alegre. Durante o ano, o projeto musical tornou-se insustentável, apesar de tentativas de lives próprias e participações em festivais online, todos os integrantes da banda acabaram recorrendo aos seus antigos empregos, não relacionados à música. Isso gerou agravo da condição financeira e os abalou emocionalmente. Loss, particularmente, precisou vender instrumentos musicais e acessórios para poder honrar seus compromissos financeiros. “Eu voltei a produzir quadros e tonéis personalizados, tive que largar a música. Os guris da banda têm outros empregos, tiveram que deixar a música de lado. Isso, para nós, foi muito frustrante. A música é a minha vida. Tivemos que trabalhar o dobro para ganharmos a mesma coisa. Eu tive que vender meus instrumentos. Troquei meu violão elétrico por um tradicional, para poder praticar. Vendi minha caixa de som, até porque não estou utilizando-a mais em shows. Só não me desfiz do meu contrabaixo, pois ele faz parte da minha história. Precisei vender meus acessórios para pagar as contas do mês.”


As escolas de música também foram amplamente prejudicadas na pandemia. Impossibilitadas de ministrar aulas presenciais, tiveram que ver seus alunos cancelando matrículas enquanto as contas acumulavam-se. Não obstante, as aulas de música entraram no topo da lista de despesas a serem cortadas. Soma-se a isso o fato de que o faturamento destes estabelecimentos nos meses de janeiro e fevereiro, em épocas normais, são menores se comparados a outros períodos do ano.


O fechamento deu-se justamente em março, o pior mês, conforme nos relata Jô Domingues, de 47 anos, que é sócia, gerente e professora na escola de música DOM: “Em janeiro e fevereiro cai a frequência dos alunos. Os alunos pensam: “Não vou fazer aula, não vou pagar mensalidade. Volto em março.” Em janeiro e fevereiro ninguém paga. Isso é um erro nosso. Alguns cursos ensinam que as matrículas devem ser cobradas em doze vezes no cartão de crédito, mas muitos alunos não dispõe de cartão de crédito.”



Jô e Flávio/foto: Esmael Ramos

Para ela, a maior dificuldade enfrentada foi o cancelamento de matrículas dos alunos em pouco tempo, uma vez que a cobrança de mensalidades era uma das principais fontes de renda. “Acredito que cada empresa teve a sua experiência. Eu não tenho funcionários. Os profissionais que estão aqui recebem por aula, então, se não tem aula, não temos vínculo. Quando recebemos a ordem geral de fechar tudo, não podia atender ninguém. Eu fiquei um mês com as portas fechadas. A maioria dos alunos saiu da escola. O que nos salvou como empresa, foi a reserva que tínhamos para sobreviver", ressalta.


Um oásis no deserto: Lei Aldir Blanc


Na contramão do pessimismo que se instaurou desde março do ano passado, uma novidade veio renovar o fôlego de artistas que foram prejudicados pela escassez de recursos promovida pela pandemia: o projeto de lei Nº 14.017, de 29 de junho de 2020, conhecido como Lei Aldir Blanc. Através desse projeto, foram liberados R$3 bilhões para estados, municípios e o Distrito Federal, sendo R$1,5 bilhão para as unidades federativas e R$1,5 bilhão aos municípios, para serem destinados a manutenção de espaços culturais, renda emergencial a trabalhadores do setor que tiveram suas atividades interrompidas, e instrumentos como editais e chamadas públicas.


Silvio Costa, de 52 anos, que é professor e diretor da Academia Gaúcha de Música Silvio Costa, nos contou que os mais de 30 anos de atuação na área ensinaram-no a não depender unicamente das mensalidades dos alunos para obtenção de renda e, por isso, demonstra tranquilidade, e um otimismo moderado, em relação ao quadro atual. Muito antes do coronavírus ser uma realidade terrível, ele já obtinha recursos para a escola através da captação mediante a leis como a LIC (Lei de Incentivo à Cultura) e a Lei Rouanet. “Estou com 52 anos de idade e faço isso há mais de 30, então a gente já tem uma experiência e sabe que não dá pra depender só das aulas de música, só dos shows, ou só dos eventos. Temos que buscar outros caminhos… quando parou tudo, eu já estava com os projetos prontos e já tinha alguma coisa encaminhada via LIC e via Rouanet. Também já estava preparado porque eu sabia que viriam recursos, que acabaram vindo em uma hora maravilhosa, pois já estávamos preocupados.”



Sílvio Costa/foto: Celso Marques.

Com prática na criação de projetos, o professor nos conta que, além de redigir os seus próprios projetos, também auxiliou amigos músicos e artistas de outros segmentos. “Fiz, na Lei Aldir Blanc, projetos para mim e para escolas de amigos meus que não sabiam fazer. Eu devo ter uma lista de uns quinze projetos que eu fiz só para a Aldir Blanc. Da CUFA (Central Única das Favelas), devo ter entre oito e dez. Ajudamos o pessoal a fazer, se inscrever e cadastrar os projetos. Umas das maiores necessidades dos profissionais da nossa área é que o músico aprende a tocar guitarra e fica só na guitarra, não entende que precisa buscar outros caminhos. Nós, graças a Deus, tivemos essa visão de termos projetos prontos. O profissional de música precisa estar informado, tem que ter o seu cadastro de produtor cultural para alimentar a sua cadeia produtiva.”


O entrevistado reforça a importância de o musicista estar bem informado, pois as oportunidades têm um dinamismo acelerado. Também enfatiza que o fomento dessas boas práticas de gestão de negócios no setor artístico ocorrerá mediante capacitação de profissionais e disseminação de conhecimento, e que a maioria dos artistas padece por falta de organização. Objetivamente, Silvio Costa mobilizou inúmeros músicos do município de Sapucaia do Sul para participarem do segundo edital dos recursos liberados pelo governo federal, dentre os quais encontra-se Jô Domingues, que já foi mencionada nesta reportagem. Segundo a cantora, o acesso à informação é dificultoso, pois não há um órgão ou portal oficial que centralize essas informações. “A gente ficou sabendo do edital da Lei Aldir Blanc porque o Silvio Costa nos avisou, assim como avisou para outras pessoas, pois ele tinha consciência que pouca gente sabia disso.”


Apesar das ponderações feitas, a artista reconhece que o benefício disponibilizado através da lei veio em boa hora. “A Lei Aldir Blanc foi uma coisa muito boa que aconteceu. Foi a notícia do ano para nós e para muita gente. O responsável pelo estúdio que gravou a música pra nós ficou muito feliz quando recebeu. Graças a lei, a gente pode empregar profissionais dessa área.”


Conversamos com Lilian Nunes da Silva, de 37 anos, que atua como técnica em cultura na Secretaria da Cultura da cidade de São Leopoldo. Ela nos contou que a participação dos cidadãos foi fundamental para distribuir os recursos com maior equidade. “Aqui (em São Leopoldo), a gente fez a construção do edital da lei Aldir Blanc com a participação da sociedade civil desde o começo. Chamamos os fóruns de linguagem, fóruns artísticos, para conversar sobre a lei, explicar o que era, e nos prepararmos para a conferência. Tivemos uma conferência municipal de cultura, em meados de agosto do ano passado, feita de forma virtual. A partir dessa conferência, levantamos as demandas que os artistas tinham com relação ao edital, para só depois formatarmos o edital da Lei Aldir Blanc. Essa conferência também foi basilar para o decreto municipal de regulamentação da lei Aldir Blanc em São Leopoldo.”


Segundo dados oficiais da Secretaria da Cultura do município de São Leopoldo, houve 379 inscrições no edital de projetos para o inciso III e 92 inscritos no edital de instituições e empresas culturais para o inciso II, totalizando 471 inscrições. Do total de inscritos, 289 projetos foram contemplados no inciso III e 70 entidades culturais foram contempladas no inciso II. Ao todo, foram executados R$1.553.824,10 do valor disponibilizado para a cidade, onde R$899.000,00 foram repassados para os cadastrados no inciso III e R$654.824,10 no inciso II. Importante ressaltar que adotou-se o sistema de cotas para distribuição dos recursos, sendo 30% dos projetos contemplados para proponentes negros e pardos, e outros 30% para proponentes mulheres. De todos os projetos contemplados pelo decreto, 43,30% são do segmento musical.


Arte da Lei Aldir Blanc, em São Leopoldo

Os artistas e a informalidade


Um triste, porém importante aspecto que o levantamento realizado pela prefeitura leopoldense nos mostra é a alta incidência de artistas que atuam de maneira informal. Conforme a pesquisa realizada, dos 379 artistas que responderam a pesquisa - de todos os segmentos culturais e não somente musical - 301 atuam desde antes do início da pandemia como autônomos, correspondendo a 79,4% do público total. Outro número expressivo é que 75,5% dos agentes culturais da cidade tinham como única ou principal fonte de renda suas produções artísticas. As informações coletadas nesse estudo traduzem em porcentagens e gráficos a realidade que já foi destacada anteriormente nos relatos dos nossos entrevistados. Excelentes artistas desempenham brilhantemente seus papéis, porém, não dão a devida atenção a profissionalização de suas carreiras. Isso deve-se, entre outras coisas, a um costume social que caracteriza-se pela tradicional pergunta, que é feita de maneira recorrente: “você só toca ou também trabalha?”. Enquanto a atividade artística não for devidamente respeitada como profissão, não haverá progresso neste aspecto.


Em São Leopoldo, pelo menos, há a intenção de reverter este cenário. Lilian nos falou que, com estes dados em mãos, a secretaria da cultura atuará na capacitação dos artistas do município. “A gente já tinha alguns planos de fazer algumas formações, mas a partir desse levantamento e do planejamento deste ano, na continuidade da gestão que foi reeleita, para esses próximos quatro anos a secretaria da cultura está formatando um programa de economia da cultura. Estamos buscando parcerias e vamos investir recursos para capacitação e formação dos agentes culturais da cidade para fomentar a economia da cultura, seja através da formalização, da geração de renda, da capacitação dos agentes para participar dos editais e inscrever projetos. Percebemos que muitos que se inscreveram não sabiam formatar projetos, por mais simples que fossem. As pessoas sabem tocar e cantar, mas não sabem vender seu trabalho, não entendem seu trabalho como um produto.”


Na mesma linha de valorização dos agentes culturais locais, a prefeitura de Canoas anunciou que disponibilizará microcrédito, dando preferência para artistas iniciantes. Essa iniciativa visa fomentar a economia da cultura local e incentivar a produção cultural dos mais diversos segmentos artísticos. O período para inscrições no programa encerra dia 22 de abril. Serão contemplados até 50 projetos de até R$5.000,00 cada. Mais informações disponíveis através do link: https://www.canoas.rs.gov.br/noticias/secretaria-de-cultura-anuncia-inscricoes-para-o-microcredito-cultural-2021/




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